terça-feira, 17 de novembro de 2009

Narcisa

Maria Alice descobriu o espelho,
e ele lhe sorriu de volta.

Um braço veio a frente,
o outro alcançou-o
e o reflexo se fez real.

Mamãe Paixão logo chamou
e os dois a contemplar
Maria Alice a se admirar.

Era ela no espelho, era ela!
E agora é para sempre.

domingo, 15 de novembro de 2009

Parques e Calçadas


Mamãe Patrícia, amiga minha que será mãe de um lindo menino, vai aproveitar duas coisas em Brasília que nós aqui não temos perto de casa: praças e calçadas adequadas.

Desde que Maria Alice nasceu Mamãe Paixão reclama a ausência de praças próximas para levá-la para passear. É verdade, estamos até bem pertos do Parque do Ibirapuera, a 10 minutos de carro, mas não há por aqui nenhum lugar arborizado que consigamos chegar a pé.

É um dos problemas de São Paulo e das cidades grandes que crescem desordenadamente - a falta de áreas verdes para as famílias. Com filhos a gente passa a entender isso melhor.

Mas o que mais nos faz sofrer assim que saímos para passear são as calçadas paulistanas.

Tudo bem que já é público e notório que São Paulo, como provavelmente a maior parte do país, tem calçadas mal feitas, quebradas e etc. Culpa do descaso do poder público e da falta de atenção dos moradores que, por lei, têm também responsabilidade pelo passeio público.

Mas tudo se intensifica na nossa cidade que, além de ter calçadas e asfaltos cheios de buracos, foi construída em um grande planalto. São tantos desníveis e degraus que sair com a Maria Alice no carrinho durante semana é uma aventura digna das selvas africanas.

Eu nunca tinha pensado nisso, até porque acessiblidade para mim dizia respeito apenas aos idosos e deficientes nas ruas, mas a partir de agora lembarei também das milhares de mães com seus carrinhos de bebê andando por aí e tendo todas as dificuldades do mundo nas calçadas e ruas de São Paulo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ó do bigode!


Como tradicional paulistano, sou descedentes de europeus: Vovó Andrade era portuguesa.

E como boa portuguesa, era uma grande mulher. Cuidou das três filhas sozinha, manteve a família por anos apenas com a receita da venda de alimentos em feiras livres e depois morou sozinha até falecer.

Vovó também era birrenta e teimosa, mas tinha um enorme coração. Coisas de portugueses.

Não consigo esconder minhas raízes, minhas ações me entregam no dia-a-dia ao cuidar da pequena Maria Alice.

  • Mamãe Paixão pede um cotonete, eu trago um cotonete. Era para trazer dois, um para cada orelha.
  • Mamãe Paixão diz para levá-la para o banho, eu a levo vestida. Era para tirar a roupa antes.
  • Mamãe Paixão pede as seringas dos remédios dela, eu as trago vazias. Era para ter enchido com os remédios.

E por aí vamos...

Comigo as coisas são assim, o que é branco é branco, o que é preto é preto. Me pediu "x", eu trago "x". Não tenho como adivinhar que Mamãe Paixão está querendo algo mais completo se ela não se explicar direito.

Coisas de português...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Apagão

Maria Alice dormiu às 22:30 na noite do apagão. Foi cedo, muito cedo para ela e para nós. Estava tudo escuro e silencioso, talvez tentemos repetir a dose hoje de novo.

Momentos como esses, ainda que fruto da gigantesca ineficiência da administração pública, são gostosos para gerar bons papos. Para nós - como diria o amigo Durval - foi um momento antropológico.

Aproveitamos para conhecer melhor a Maria Alice. Dormiu cedo, acordou cedo na manhã.

As crianças seguem o ritmo de vida dos pais e ela está seguindo o nosso. Também somos notívagos em casa, eu raramente consigo deitar antes da meia-noite, Mamãe Paixão tampouco. E a pequena se orienta pela nossa rotina.

Certa vez passei alguns dias na casa de uma família que dormia oito, nove horas da noite e acordava as cinco da manhã. Mãe, pai e três filhos. Foi uma loucura, mas uma boa experiência. Eu realmente conseguia aproveitar melhor o dia, mas ai perdia o melhor da noite, o futebol. Aí não dá jeito não.

* * *

Enquete nova no ar. Vamos ao Chile e estamos em dúvida se nos hospedamos em um albergue com quarto exclusivo e banheiro ou ficamos em hóteis regulares. Um hotel três estrelas cobra o dobro pela diária, é uma bela diferença para uma semana de viagem e a grana não é tão grande assim.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Gerações


Tia Dirce esteve aqui no mês passado. Na foto, é ela abraçada à Maria Alice.

Tia Dirce representa uma época que minha filha não viverá: a dos tios vivendo no interior de São Paulo. Quantas viagens não fiz no Natal, Ano Novo e férias escolares para visitar a família que morava em cidades do Vale do Paraíba ou próxima do Paraná?

Guardo até hoje a memória daquelas viagens de carro na qual acordávamos as seis da manhã para evitar o trânsito e meu pai montava uma caminha para nós no porta-malas da Caravan, organizada para caber quatro crianças deitadas a viagem toda.

E quando acordávamos fazíamos jogos, contávamos carros e placas, cantávamos música. Tudo muito divertido e nostálgico, mas que agora dificilmente se repetirá.

As tias estão morrendo. A família, que já era distante, fica cada vez mais e mais sem se ver. Meus irmãos e primos mais próximos ou moram em São Paulo ou muito longe, impossível de se chegar em uma viagem de carro.

Maria Alice viverá outra geração. A época das viagens de avião, do mundo globalizado, do consumo padrão - seja aqui ou em Santiago do Chile. Poderá comprar compotas de doces na padaria da esquina, não conhecerá a prestigiada Maria Quitéria, quituteira de Guaratinguetá.

Outros tempos, outras memórias. As minhas estão vivas ainda, e foram felizes. Façamos as dela também valer a pena!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Catarse


Torcer é uma grande emoção. Ontem Maria Alice torceu comigo de noite, em um final emocionante de um jogo de futebol.

Muitos já estudaram e outros tantos ainda vão estudar o comportamento da massas em eventos de que geram catarse coletiva. Futebol é um deles, principalmente no Brasil. E eu sou da massa, sofri muito ontem.

Não acho que Maria Alice vai sofrer como o pai. Talvez só em época de Copa do Mundo. Mas vou fazer minha parte para tê-la do meu lado nesses instantes em que parece que o tempo pára e tudo o que queremos é que uma bola entre no gol - ou às vezes não entre, como ontem. E esse apito que não chega nunca.

Ontem eu gritei de felicidade. Maria Alice não entendeu muito, mas gritou junto. Viva o espetáculo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Três Meses

Quando é que chegam os três meses?

Todo mundo fala que os bebês acalmam depois de um período de três meses, que é quando se forma definitivamente o sistema disgestivo deles e diminuem as dores. É verdade?

Maria Alice tá gritando muito por esses dias. Chora, pede colo, segura o intestino, mais do que até então. Mamãe Paixão é quem sofre com tudo isso, pois passa o dia inteiro com ela sozinha e vive uma rotina que não é legal para ninguém.

Eu queria estar mais ao lado dela, mas a rotina me impede. Sai rotina velha, entra rotina nova. E ainda não conseguirei ficar muito com ela.

Tento confortá-la lembrando que é só uma fase e que está acabando. Vai acabar quando, então?