domingo, 28 de março de 2010

Cidadania


Eu não sei como Maria Alice vai ser quando crescer. Não sei quais serão os valores dela, as crenças, como vai agir e o que vai fazer de certo ou de errado, enfim, simplesmente não tenho a menor idéia de que filha terei quando ela estiver condições de decidir por conta própria e de seguir seu rumo na vida.

Minha única certeza com relação a isso é que, como pai, posso e devo tentar inspirá-la com as minhas atitudes e meus valores. São pequenas coisas, às vezes detalhes de comportamento, mas que são aquilo que acredito e que faço, e que espero que Maria Alice incorpore como dela. Se o fará, não sei, mas não será por falta de exemplo paterno.

Ela nunca verá o seu pai, por exemplo, incentivando uma briga. Nunca o verá comprando produtos piratas (é sério, é muito raro eu fazer isso) e nem tentando se aproveitar de alguém. Ela provavelmente ouvirá bastante seu pai falar em política, que ele adora acompanhar, mas com legitimidade para criticar quem quer que seja, já que paga seus impostos e jamais tentar corromper alguém com dinheiro ou de qualquer outra forma ilícita.

Ouvirá de seu pai que religião é importante, mas mais importante que isso é existir liberdade de crença. Aliás, se acostumará a vê-lo defender que a liberdade individual é a condição primeira para se exigir qualquer outra coisa para a sociedade, e que não há regra moral alguma que justifique as ditaduras.

Maria Alice verá seu pai separando e reciclando lixo, evitando acumular plásticos, evitando sentar em assentos preferenciais. Provavelmente terá muitas oportunidades de observar seu pai irritado porque as pessoas furam fila, mas ele não, prefere perder mais tempo a se fazer de esperto e desrespeitar quem chegou antes dele ("ainda que todo mundo faça isso" - expressão mais utilizada pelos defensores da prática).

Vai ouvir de seu pai uma defesa incondicionada da vida humana, uma defesa sincera da igualdade entre as pessoas e o combate franco a qualquer iniciativa de se tentar separá-las por qualquer critério e justificativa que seja.

Enfim, vai ver e ouvir muita coisa. Do mesmo jeito que eu vi e ouvi dos meus pais, e com eles aprendi e incorporei como meus muitos valores e atitudes. Da Mamãe Paixão também virão outras influências, algumas parecidas com as do papai, outras próprias, só dela.

Tudo isso talvez ajude a moldar quem Maria Alice será. Espero que ajude. De verdade, para saber, só em muitos anos pela frente. Aí seremos nós a ver.

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