domingo, 13 de janeiro de 2013

Minhas bonecas


Um articulista recentemente escreveu que brinquedos não deveriam ter distinção de gênero, e que ele dá bonecas a filhos de alguns amigos. Estranhamente, nenhum grupo feminista se levantou contra este exagero travestido de "intelectualismo moderno", e ninguém apontou o preconceito de gênero explícito no texto original.

Meninas não brincam mais com bonecas que meninos porque os pais (ou o mercado capitalista das indústrias de brinquedos e da propaganda - o velho chavão) assim o querem. Meninas brincam mais com bonecas porque são, afinal de contas, meninas!

Naturalmente, nem sempre é fácil perceber que as meninas nascem com o mesmo instinto materno que suas mães, e os replicam (mimetizando as progenitoras) nas suas bonecas. Para isso, claro, não há experiência melhor do que ter tido duas filhas, e observar a ambas com os olhos de um pai não somente apaixonado, mas também curioso com os estágios do desenvolvimento humano.

As bonecas, assim, são para as meninas muito mais do que apenas um brinquedo comum, mas algo para o qual elas dão grande valor: dão de mamar, simulam xixi, fazem ninar, etc.

Já para os meninos - tá bom, eu não tenho experiência prática aqui, a não ser pelo fato de eu mesmo ter sido, opa, um menino! - bonecas são apenas mais um brinquedo no imenso grupo de todos os outros que já temos.

Se a boneca representa para as meninas algo importante, porque da natureza feminina, dar uma boneca para um menino desvaloriza o papel do brinquedo e desrespeita as mulheres. Boneca é sim um brinquedo de meninas, ao passo que não há um brinquedo específico que possa ser considerado de meninos, pois não há nada de biológico em nós homens que se projete em um brinquedo desde criança.

O erro do articulista, nesse ponto, foi não ter percebido que o preconceito não está em quem dá bonecas para meninas e carrinhos (ou bonecos de ação) para meninos. O preconceito existe nos pais que não permitem que suas meninas brinquem também com carrinhos, se assim o quiserem, e seus filhos brinquem também com bonecas, se essa for a vontade deles.

Uma sociedade melhor (o título original do artigo aqui citado) não se forma pela imposição de uma visão asséptica e totalitária, como essa apresentada de que brinquedos não devem ter gênero. Uma sociedade melhor surge quando entendemos o papel de cada um dentro da sociedade, homens e mulheres, e os respeitemos naquilo que os aproxima e naquilo que os diferencia.

Aqui em casa, por sinal, as meninas têm várias bonecas para brincar. E se quiserem, elas também já têm carrinhos, ratos automatizados, e um pai desesperado para vê-las crescer e poder brincar de tudo - inclusive "brincadeiras de meninos". Tô só esperando!